5 de Julho de 2009 - Domingo XIV do Tempo Comum

Virtudes e vícios (I)

Gostava de vos começar a falar hoje de virtudes e vícios.

Quanto ao comentário directo das leituras da Palavra de Deus, remeto por agora para as Notas e Comentários que podem ser lidas na 2ª página da Folha Paroquial.

Penso que todos concordaremos em que hoje, num tempo em que quase toda a gente tem computadores, até as crianças das escolas, há um grande défice de virtudes.

Uma das virtudes que mais falta é a boa educação. Mas a boa educação, sendo uma virtude importante, não é, nem de longe, a mais importante. Por isso, convém-nos começar pelas mais importantes, de que falaremos já a seguir.

Mas antes, seria bom encontrar uma definição de virtude. Um autor medieval que teve grande influência, chamado Pedro Lombardo, disse que uma virtude é uma qualidade do espírito, graças à qual vivemos rectamente.


Rafael, A Escola de Atenas (porm.) (Platão e Aristóteles) (1505)

Não é uma qualidade física, como por exemplo jogar muito bem futebol, nem é uma pura qualidade intelectual, como falar várias línguas. Ser um grande jogador, ou dominar uma língua estrangeira não significa que se tenha passado a ser uma boa pessoa...

As virtudes são capacidades que vamos adquirindo ou reforçando, residem no nosso espírito, e dirigem-nos para aquilo que é melhor para nós, para o nosso fim verdadeiro.

É verdade que os vícios também estão «dentro» da pessoa, mas desafiam sempre a procurar objectivos falsos. Uma pessoa desonesta pode ser levada a cometer fraudes ou até a roubar para se tornar muito rica, mas, mesmo que o venha a ser, não atingiu oseu fim verdadeiro, mas apenas um fim ilusório e muito perigoso.

Pelo contrário, as virtudes são disposições para agir bem. Por exemplo, se alguém cultivou sempre uma virtude como ajustiça, será levado a fazer aquilo que é justo em relação aos outros, e com isto estará a ajudar fortemente a fazer um mundo melhor.

Quais são as virtudes mais importantes? (Falamos agora das virtudes humanas, que resultam do nosso esforço, e não das virtudes sobrenaturais, dadas por Deus). Um dos maiores pensadores de todos os tempos, Platão, na sua obra A República, menciona quatro virtudes importantes: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

Outro grande filósofo grego, Aristóteles, emprega uma divisão diferente. Mas houve outras correntes, como os estóicos, que mantiveram esta doutrina das quatro virtudes, e os autores cristãos também a fizeram sua. S. Tomás de Aquino aceitou esta forma de classificar as virtudes, e disse que todas as outras virtudes repousam sobre estas.

Às vezes também se chamam virtudes cardeais. Esta palavra vem de um termo latino que tem a ver com a forma como os antigos romanos mediam os terrenos, traçando linhas rectas, que depois formavam lotes quadrados. Por isso, as virtudes cardeais são como que as balizas ou as linhas entre as quais a nossa vida moral se deve desenvolver.

Vamos olhar agora um pouco para a primeira destas virtudes, a prudência. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a prudência é a virtude que dispõe a nossa inteligência "para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios de o atingir" (n.1806). Qualquer pessoa precisa de saber em todo o momento o que é bom para si, ou para a sua famnia, e como é que pode atingir esse bem verdadeiro.

Quando eu soube que Deus me chamava a ser sacerdote, pensei que o melhor era ir falar com o meu Prior, o Sr. Padre João de Sousa, e com o Reitor do Seminário dos Olivais, ao tempo o Sr. Padre José da Cruz Policarpo, hoje Cardeal Patriarca de Lisboa. E assim fiz...

Também muitas vezes há pessoas, pais ou mães, que sentem que precisam de ganhar mais, para sustentar a sua família. E podem então decidir mudar de emprego, se for prudente, se for possível...

A prudência é a «recta norma da acção», escreve São Tomás. "Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e ultrapassamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar". (Catecismo da Igreja Católica, n.1806).

Outras vezes, ainda por imprudência, as pessoas não medem as consequências dos seus actos, ou não avaliam cuidadosamente os factores implicados nas decisões que tomam. Imaginem uma pessoa que se zangou no emprego e, precipitadamente, diz que se quer despedir. Será que pensou bem nas dificuldades que vai ter em arranjar um novo trabalho?

Finalmente, a negligência consiste em não realizar uma acção que a razão tinha mostrado que devia ser feita. Se um estudante vai ter um teste ou um exame, é evidente que tem de estudar. Mas, se em vez disso, perder os dias a jogar no computador ou as noites nas discotecas, está a ser negligente e isso pode ter custos elevados.

Por vezes a negligência pode ser um pecado grave. quando se deixam de realizar acções que setinha o grave dever de realizar. Por exemplo: os pais não cuidarem bem dos filhos pequenos ou os médicos não se preocuparem em fazer um bom diagnóstico dos seus doentes.

Também há vícios que se parecem falsamente com a prudência. É o caso do calculismo, que não é movido por recta intenção. e que pode levar a prejudicar os outros, ou da astúcia, que usa da esperteza para enganar os outros, e que pode ser também um pecado grave.

Terminamos com o propósito de sermos prudentes, não para sermos medrosos, mas para sermos ousados, e correspondermos com grandeza ao amor que Deus nos tem, realizando a nossa vocação e cumprindo sem mesquinhez a missão que nos foi confiada.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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