12 de Julho de 2009 - Domingo XV do Tempo Comum

Virtudes e vícios (II)

Continuamos hoje a falar de virtudes e de vícios. A segunda grande virtude cardeal é a justiça.

Vem muito a propósito falar da justiça, poucos dias depois de Bento XVI ter publicado a sua terceira encíclica, A caridade na verdade, "sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade".

Mas hoje vamos simplesmente recordar alguns conceitos básicos sobre a justiça. Seguindo uma antiga definição, podemos dizer que a justiça é "a vontade estável e permanente de dar a cada um o que lhe é devido".

O próprio Bento XVI lembra que a justiça "induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir".


Perugino, Prudência e Justiça com seis antigos sábios (1497)

O Papa nota que a "caridade supera a justiça. porque amar é dar, oferecer ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça (...). Não posso «dar» ao outro do que é meu. sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça" (Caritas in veritate. n. 6).

A justiça, portanto, não deve existir só nos tribunais: deve existir. antes de mais, nas pessoas. Cada um de nós é chamado a dar aos outros o que é justo, o que lhes é devido. E devemos estar dispostos a fazê-lo sempre e em todas as circunstâncias. Só assim a justiça é uma virtude, e nâo uma convenção legal ou um entusiasmo passageiro.

Quando os governos dos Estados dão às pessoas ou às comunidades aquilo que lhe é devido - por exemplo. o adequado apoio às famílias com filhos pequenos - estamos diante da chamada «justiça social». É sobre o vasto campo da justiça social que a Igreja se tem pronunciado na sua «Doutrina Social», desde Leão XIII até Bento XVI.

Mas também há uma justiça individual, que não pode ser descurada. Não podemos só exigir aos governos, também temos que nos exigir a nós mesmos!

Cometer uma injustiça - por exemplo não pagar aquilo que se deve ou dizer mal de alguém falsamente - significa prejudicar outra pessoa, e pode ser uma falta grave.

Por outro lado, quem se apropria do que não lhe pertence, numa palavra, quem rouba, tem de restituir! Às vezes a restituição. no sentido estrito do termo, não é possível, como no caso da difamação, mas tem de se procurar devolver algo de valor aproximadamente igual. Quem difama alguém, depois, tem de tentar pelo menos dizer tanto bem dessa pessoa quanto disse mal...

Já no campo da relação directa entre as pessoas, a mais grave violação dos direitos dos outros que pode existir, é, evidentemente, o homicídio. Todos os homens têm o direito à legítima defesa, mas ninguém pode tirar a vida a um ser humano inocente.

E que dizer da pena de morte aplicada a seres humanos? A este respeito, recomendo a leitura de um texto do Catecismo da Igreja Católica (n. 2267), que esclarece a posição da Igreja sobre o assunto.

Uma questão diferente, mas sobre a qual é bom ter também ideias claras. é a do suicídio. Há pessoas que, devido a uma grave desonra social, ou com o intuito de se libertarem de situações muito penosas, como uma doença incurável, podem ser tentadas a põr voluntariamente fim aos seus dias.

Mas há três razões principais para não o fazer. A primeira é que o suicídio se opõe à nossa inclinação natural para nos manter em vida. assim como ao amor que devemos ter por nós mesmos. Além disso, o homem é membro de uma sociedade. à qual prejudica, ao pôr termo à sua vida. E sobretudo, a nossa vida é um dom de Deus, do qual não podemos dispor livremente. Tudo isto se aplica também ao recurso à eutanásia activa, naqueles casos em que alguns consideram ­sem razão- que a vida humana perdeu o sentido, por causa de sérios problemas de saúde, de dores insuportáveis ou pela decadência das faculdades mentais de alguém.

E vamos abordar ainda um último ponto, a questão da propriedade privada. Possuir certos bens é natural para todos os homens. No entanto, este direito não é ilimitado, porque os bens naturais devem estar à disposição de todos.

Por outro lado, vê-se que há vantagens em que o ser humano tenha a possibilidade de adquirir bens para si mesmo e de os utilizar (embora, também possa, por razões sobrenaturais, renunciar a fazê-lo).

S. Tomás observa que os seres humanos trabalharão mais e serão mais cuidadosos no uso das coisas quando estas lhes pertencem, do que o seriam se elas fossem propriedade pública. Se S. Tomás tivesse conhecido os regimes totalitários do séc. XX, teria podido ver uma clara confirmação desta sua doutrina.

Quanto ao emprego dos bens, no entanto, não se deve considerar que o direito à propriedade privada é um direito exclusivo ou absoluto. Não nos deveríamos considerar donos das coisas que temos, mas apenas administradores.

E, em caso de urgência ou necessidade, aqueles que têm mais deveriam estar desejosos de partilhar com os que precisam mais. e fazê-lo com alegria.

Mesmo em tempo de crise, é sempre possível partilhar, e felizmente muitos o fazem. Uma nossa paroquiana elaborou um plano para dar respostas a situações de famílias que, devido à situação actual de desemprego motivada pela crise, se encontrem em situação económica muito difícil.

Na Paróquia, Já temos o serviço da Pobreza Silenciosa (até agora chamada Pobreza Envergonhada), com o qual muitas pessoas colaboram com os seus donativos uma ou várias vezes por ano. Esta nova proposta é um pouco diferente. Tem o horizonte de um ano, e um contributo mensal fixo. Divulgo-a com muito gosto, esperando que também possa ter bom acolhimento.

E peçamos que haja em nós sempre esta firme disposição de dar aos outros o que lhes devemos. E mesmo quando este dever esteja saldado, "o amor ­caritas - será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa", escreveu Bento XVI na sua 1ª encíclica.

"Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo" (Deus caritas est, n. 28).

Que Deus nos dê sempre uma grande criatividade e generosidade para a descobrire a praticar.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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