26 de Julho de 2009 - Domingo XVII do Tempo Comum

Virtudes e vícios (IV)

S. Paulo, na 2ª leitura deste domingo, fala de algumas virtudes cristãs, e convida os membros da comunidade de Éfeso a proceder "com toda a humildade, mansidão e paciência".

Será que os poderia ter convidado também a viver com fortaleza? Será a fortaleza também uma virtude cristã?

Sim, a fortaleza é também uma virtude humana e cristã, que não se opõe à humildade, como veremos. E é uma virtude muito importante, porque nos ajuda a superar as dificuldades que podemos vir a encontrar quando nos decidimos a viver uma vida como deve ser.

A fortaleza não tem nada a ver com aquela atitude que às vezes se define assim: «Seja o que Deus quiser...» levando as pessoas a lançar-se um pouco aventureiramente ou temerariamente para dificuldades que não sabem se vão ser capazes de vencer.

A fortaleza não é irresponsabilidade. Também não se identifica com a simples força física...

Mas um dos seus efeitos é ajudar-nos a não ter medo. A fortaleza ajuda-nos a superar o medo, que nos poderia fazer recuar diante de certas tarefas difíceis ou arriscadas. mas necessárias.

Por exemplo, os bombeiros que têm de apagar um incêndio ou os paramédicos que vão intervir num acidente têm que ter uma grande fortaleza, para conseguirem cumprir até ao fim toda a sua missão.

Quando houve o atentado às Torres Gémeas, entre os bombeiros que morreram quando as Torres desabaram, encontrou-se também um sacerdote, aliás já idoso, que era o capelão daquela força de bombeiros, e que quis estar com eles naquela hora dramática. Sabia que arriscava a vida. mas queria estar com eles. E assim foi, até ao fim.


Sandro Botticelli, A Fortaleza (1470)

Graças à fortaleza, o medo não nos paralisa, mas conseguimos resistir ao medo, de uma forma não irresponsável, mas ponderada.

Pela fortaleza podem-se correr certos riscos, enfrentando até a morte, se necessário, embora não a procurando directamente.

Socorrer as vítimas de guerras, de doenças contagiosas ou de cataclismos naturais, defender os fracos e inocentes contra organizações criminosas, ou lançar iniciativas que põem em questão costumes sociais injustos, como o racismo ou o sistema de seitas, por exemplo, tudo isto é objecto da fortaleza.

S. Tomás de Aquino diz que a forma mais alta da fortaleza é a vontade de sofrer o martírio, para dar testemunho da fé e da verdade, para dar testemunho de Cristo.

Mas, para além destas situações mais extremas, a fortaleza actua não nos deixando «ir a baixo» nas dificuldades, fazendo-nos manter firmes, diante dos numerosos obstáculos e dificuldades que encontramos ao longo da vida.

Com a ajuda da fortaleza, aguentamos e mantemo-nos firmes, continuando a procurar atingir o fim bom que desejamos alcançar. Isso pode levar-nos a enfrentar certos perigos, exigir esforço, mas dá-nos alegria interior, como diz também S. Tomás de Aquino.

Também há defeitos ou vícios que se opõem à fortaleza. Uma delas chama-se temeridade. Imaginem um grupo de pessoas que entram num avião para saltarem de pára-quedas e, quando chega a altura de saltar, verificaram que os pára-quedas estam avariados, mas saltam mesmo assim...

Há dois anos, por esta altura, estive no Mosteiro de S. Bento, de S. Salvador da Baía, que fica no centro histórico da cidade numa zona onde não se pode sair à noite, e contaram-me que, algum tempo antes, um outro hóspede que tinha passado lá uns dias, arriscou-se a sair para dar um passeio e, como seria de esperar, foi assaltado e ficou até bastante ferido...

A temeridade leva-nos a não ter medo daqueles perigos ou daquelas ameaças de que, pelo contrário, deveríamos ter medo, e que deveríamos evitar, já que daí não virá nenhum bem nem nenhum serviço aos outros.

Há duas virtudes que podemos considerar como auxiliares da fortaleza: são a perseverança e a paciência. A perseverança ajuda-nos a não deixar a meio aquilo que começámos, a não abandonar aquilo a que dedicámos, no início, tanto entusiasmo e esforço. Mas depois passa o entusiasmo e vem o perigo de desistir.

E a paciência, de que também fala S. Paulo, ajuda-nos a não nos angustiarmos com as dificuldades que ainda não conseguimos vencer. e que se vão prolongando no tempo. sem se saber bem até quando. Mas é preciso não abandonar a luta e continuar a ser forte!

Finalmente, a fortaleza está associada a outra virtude chamada magnanimidade, que, como o nome indica, nos torna capazes de realizar coisas grandes.

Será que a magnanimidade se opõe à humildade, que S. Paulo recomenda aos Efésios?

S. Tomás de Aquino diz que uma pessoa pode ser ao mesmo tempo magnânima e humilde: magnânima, graças aos dons de Deus; e humilde, porque sabe que é uma simples criatura, e ainda por cima com faltas e pecados.

E quem não for chamado a fazer coisas grandes, ou não tiver possibilidades de o fazer? Nem todos podemos descobrir o caminho marítimo para a índia ou chegar à lua, como os astronautas que pisaram pela primeira vez este planeta em 20 de Julho de 1969, há quarenta anos.

É verdade, mas todos podemos fazer grandes as coisas pequenas de cada dia, pelo amor com que as realizamos e oferecemos a Deus.

Também no Evangelho de hoje aparece um rapazito que, no momento em que era preciso alimentar uma multidão, era o único que tinha alguma coisa para oferecer, e mesmo isso era muito pouco, eram apenas cinco pães e dois peixes.

Mas o pouco torna-se multo, multiplica-se nas mãos de Jesus. Por isso não devemos renunciar a fazer coisas grandes, para glória de Jesus e salvação de muitos.

E a maior de todas é ganhar o mundo para Cristo, tornar cristão o mundo, para ser mais feliz. E preciso querer, e ter um grande desejo de o conseguir.

Com fortaleza estamos dispostos a realizar tudo o que hoje Jesus nos pedir, a dar-Lhe tudo o que tivermos nas nossas mãos, mas sabendo sempre, com humildade verdadeira, que tudo é dom de Deus, e que sem Jesus nada podemos fazer.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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