2 de Agosto de 2009 - Domingo XVIII do Tempo Comum

Virtudes e vícios (V)

Nos passados domingos, falámos de 3 virtudes cardeais: prudência, justiça e fortaleza. Hoje vamos considerar a quarta virtude cardeal: a temperança, também chamada moderação.

São Paulo escreveu ao seu discípulo Tito, que tinha deixado como bispo na ilha de Creta: "Exorta os jovens a serem moderados" (Tito 2, 6). O Papa João Paulo II, numa das primeiras audiências gerais após a sua eleição, observou que poderia parecer estranho falar da temperança ou da moderação a jovens e a adolescentes.


Rafael, A Temperança (1511)

Mas, notou então o Santo Padre, esta virtude cardeal, que é necessária para todos os homens, e em todas as idades, é necessária de modo particular para os jovens, que se encontram ainda a caminho de uma maturidade mais perfeita, para serem capazes de enfrentar os desafios da vida, nas suas mais diversas exigências.

As virtudes cardeais dependem umas das outras e estão unidas entre si. Não se pode ser alguém verdadeiramente prudente, nem autenticamente justo, nem realmente forte, se não se tiver também a virtude da temperança.

Vive a temperança aquela pessoa que não abusa dos alimentos, das bebidas e dos prazeres; que não toma em excesso bebidas alcoólicas; que não se priva da consciência ou não altera a personalidade mediante o uso de estupefacientes ou drogas.

Em nós podemos imaginar um "eu inferior" e um "eu superior". No nosso "eu inferior", que é um pouco irracional, exprimem-se as carências, os desejos, as paixões da nossa natureza sensível, que não são boas nem más: dependem do uso que delas fizermos. No "eu superior", que é mais racional, exprime-se a vontade de atingir o nosso bem verdadeiro e de agir segundo a recta razão.

Uma pessoa pode gostar muito de doces ou de chocolates, mas, se por motivos de saúde ou por outras razões, como o controle do peso, verificar que não os deve comer, pode-lhe custar muito, mas o seu eu racional é que tem de se impor sobre o irracional, e deixar mesmo de comer doces, ou qualquer outra coisa que lhe faça mal.

É essa a função da virtude da temperança, que garante a cada homem o domínio do "eu superior" sobre o do "eu inferior". Será que a nossa dimensão mais física, mais carnal, se sentirá humilhada ou diminuída, quando não a deixamos fazer tudo o que lhe apetece? Não, pelo contrário! Deve, sim, sentir-se valorizada e exaltada.

Uma pessoa casada que se sentisse atraída por outra pessoa diferente do seu marido ou da sua mulher, saberia sempre rejeitar essa inclinação ilusória e falsa, mesmo que algo de muito forte a quisesse impelir por esse caminho.

O ser humano que possui e pratica a temperança é aquele que é senhor de si mesmo; aquele em que as paixões não tomam a supremacia sobre a razão, sobre a vontade e também sobre o coração. Entendemos, portanto, como a virtude da temperança é indispensável para que o homem seja plenamente homem, para que o jovem seja autenticamente jovem.

O espectáculo triste e degradante de um alcoólico ou de um drogado, que por vezes parecem ter perdido toda a sua dignidade, faz-nos compreender claramente como "ser homem" significa, antes de mais nada, respeitar a nossa própria dignidade, isto é, deixar­nos conduzir pela virtude da temperança.

Dominar-nos a nós mesmos, as nossas tendências irracionais e a sensualidade desligada do verdadeiro amor, não significa, de maneira nenhuma, tornar-se insensível ou indiferente; a temperança de que falamos é uma virtude humana e cristã, que aprendemos com o ensino e o exemplo de Jesus, e que vemos também na vida dos santos.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que "a virtude da temperança leva a evitar toda a espécie de excessos, o abuso da comida, da bebida, do tabaco e dos medicamentos" (n. 2290).

Um número anterior define assim a temperança: "A temperança é a virtude moral que modera a atracção dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade. A pessoa que cultiva a temperança orienta para o bem os apetites sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração" (n. 1809).

Vemos, portanto, que o campo próprio da temperança é o da sensibilidade. A temperança introduz a ordem na busca das satisfações sensíveis, sobretudo nas que são produzidas pela alimentação e pela actividade da sexualidade.

As duas formas de temperança correspondentes são a sobriedade e a castidade.

Como escreve um autor português, "a temperança educa a sensibilidade, velando pela sua satisfação ordenada, equilibrada, razoável; conduz deste modo a um equilíbrio que permite ao homem desenvolver-se integralmente" (R. Cabral).

A temperança não é hoje bem vista, mas o seu resultado é uma vida harmoniosa, alegre e feliz. No fundo, é o que toda a gente gostaria de ter, e poderia ter, se aceitasse o desafio deste autodomínio, que permite amar melhor.

As virtudes fazem bem ao homem, permitem-nos viver bem. E que é viver bem?

Santo Agostinho explica o que é: "Viver bem é amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o proceder (...), de tal modo que se lhe dedica um amor incorrupto e íntegro (pela temperança), que mal algum poderá abalar (fortaleza), que a ninguém mais serve justiça), que procura discernirtodas as coisas para não se deixar surpreender pela astúcia e pela mentira (prudência) ".

Com Jesus continuemos a aprender a viver bem, não nos contentando, como diz o Evangelho, com "a comida que se perde", embora, evidentemente, esta seja necessária, mas desejando ainda mais o "alimento que dura até à vida eterna", e que o próprio Jesus, Filho do homem, homem perfeito e Deus verdadeiro, nos dará.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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