17 de Março de 2019 - Domingo II da Quaresma

A transfiguração de Cristo e as suas testemunhas

Neste segundo domingo da Quaresma, a Igreja convida-nos a meditar no relato da Transfiguração de Jesus, que ocupa um lugar à parte entre os seus milagres, porque se realiza no próprio Jesus, e revela Quem Ele é, e também como será a sua humanidade, depois da ressurreição, e ainda como será a nossa humanidade, depois da ressurreição final.

No seu comentário à Transfiguração de Jesus, S. Tomás de Aquino apresenta uma questão ou objecção que talvez existisse na mente de alguns: não seria melhor que as testemunhas da transfiguração fossem os anjos e não homens? E ainda outra questão: faz sentido que somente tivessem estados presentes Moisés e Elias, por um lado, e Pedro, Tiago e João, por outro?


Quanto à primeira questão, a resposta é simples: «os relatos evangélicos mostram-nos que, pela sua transfiguração, Cristo manifestou aos discípulos a glória do seu corpo, um corpo igual ao nosso, que assumiu, ao fazer-Se homem. Por isso faz sentido que tenham sido trazidos como testemunhas da transfiguração, não anjos, mas homens.

E quanto à segunda, é fácil entender que Jesus Cristo quis transfigurar-Se, para mostrar a sua glória aos homens e para despertar neles o desejo dessa glória. Ora, à glória da felicidade eterna são chamados por Cristo os seres humanos de todos os tempos, e não só os que existiram antes, mas também os que existirão depois d'Ele. Por isso, quando caminhava para a sua paixão, tanto as gentes que iam adiante, como as que iam atrás, gritavam, dizendo­Hosana, (que significa: salva-nos), exprimindo que esperavam d'Ele a salvação. Por isso era conveniente que, dentre os que O precederam, estivessem como testemunhas Moisés e Elias; e dos que existiram depois, estivessem Pedro, Tiago e João, para que por boca de duas ou três testemunhas ficasse confirmada essa palavra.

Devemos notar que aos escribas e aos fariseus, que lhe pediam um sinal do céu, Cristo não lhes quis dar; mas, na sua transfiguração, para aumentar a fé dos discípulos, dá-lhes um sinal do céu, a saber, a descida de Elias, do lugar para onde ascendera; e a presença de Moisés, vindo da morada dos mortos. Mas não o devemos entender como se isto significasse que a alma de Moisés tenha retomado o seu corpo; mas que a sua alma se manifestou, como o fazem os anjos, por um corpo aparente. Mas Elias apareceu com o seu próprio corpo, não vindo do céu, mas de um lugar que só Deus conhece, para o qual foi arrebatado num carro de fogo.

Como diz S. João Crisóstomo, Moisés e Elias foram trazidos como testemunhas, por muitas razões. A primeira é a seguinte: porque, como as multidões consideravam Jesus como um novo Elias, ou Jeremias, ou um dos profetas, Deus fez que aparecessem os principais dos profetas, para ao menos assim manifestar a diferença entre os servos e o Senhor.

A segunda razão é esta: porque Moisés deu ao Povo a Lei de Deus, e Elias foi o zelador da glória do Senhor. Assim, aparecendo simultaneamente com Cristo, ficava aniquilada a calúnia dos judeus, que acusavam Cristo de ser transgressor da lei, e de blasfemo por usurpar para si a glória de Deus. A terceira razão é esta: mostrar que Cristo tinha poder sobre a vida e a morte, que era o juiz dos mortos e dos vivos, por ter tido ao seu lado Moisés, que já morrera, e Elias, que Deus arrebatara deste mundo sem passar pela morte.

A quarta razão é que, como diz o Evangelho, falavam da sua saída deste mundo que havia de cumprir­se em Jerusalém, isto é, da sua paixão e da sua morte. E assim, para fortalecer, nesse ponto, a alma. dos discípulos, faz que se apresentassem na sua companhia os que se expuseram à morte por Deus; pois, Moisés, com perigo de morte, apresentou-se perante o Faraó, e Elias, não teve medo de se apresentar perante o ímpio rei Acab. A quinta razão é esta: porque Jesus queria que os seus discípulos fossem imitadores da mansidão de Moisés e do zelo de Elias. E a sexta razão, acrescentada por Santo Hilário, era mostrar que o próprio Jesus foi anunciado pela lei de Moisés e pelos profetas, entre os quais era Elias o principal.

Mas Jesus não deveria ter chamado como testemunhas da sua transfiguração, não só Pedro, Tiago e João, mas todos os discípulos? Mistérios sublimes não devem ser revelados a todos imediatamente, mas devem oportunamente chegar aos outros homens por meio de testemunhas.

Por isso, como diz S. João Crisóstomo, Cristo levou consigo os três discípulos principais: pois, Pedro foi escolhido pelo amor que teve para com Cristo e também pelo poder que depois lhe foi concedido; João, pelo privilégio do amor com que, por causa da sua virgindade, era amado por Cristo, e também pela prerrogativa de vir a pregar de modo especialmente sublime a doutrina evangélica; e Tiago, enfim, pela prerrogativa do martírio que sofreu.

E contudo, Cristo não quis que mesmo esses anunciassem o que viram antes da sua ressurreição. A fim de que, como explica S. Jerónimo, um facto de tão grande magnitude não ser tido como incrível; nem a cruz, que lhe havia de suceder, viesse, depois de tão grande glória, a causar escândalo, entre almas rudes; e para que, quando estivessem cheios do Espírito Santo, então fossem testemunhas-desses factos espirituais».

(S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, questão 45, artigo 3; adaptado).

Deus chama-nos à felicidade e à glória do Céu, mas também quer que sejamos já felizes nesta vida. Será possível? Sim, vivendo unidos a Jesus, praticando os seus ensinamentos, seguindo o seu exemplo, recorrendo ao seu perdão, procurando ter sempre em nós a sua graça, aceitando os sofrimentos em união com a sua cruz, servindo os outros, e sendo testemunhas do seu amor para com todos.

Peçamos à Virgem Santíssima que nos dê um grande desejo do Céu e uma grande vontade de sermos santos, para começarmos já hoje a sermos muito felizes nesta terra.

Blog  Ad te levavi
Arquivo