3 de Maio de 2020 - 4º Domingo da Páscoa
Domingo do Bom Pastor

A porta da vida

Nenhum dos Evangelhos mostrou a divindade de Jesus de modo tão absoluto como S. João, em que ouvimos Jesus dizer: "Eu sou a luz do mundo" (8,12), "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (14,6), "Eu sou a ressurreição" (11,25), "Eu sou a porta" (10,9), "Eu sou o Bom Pastor" (10,11), e, no Apocalipse: "Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o princípio e o fim" (22,13).

Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo
Comentário ao Evangelho de São João, I, 21-25


Estatueta do Bom Pastor (séc. III) Museu Pio-Cristão, Vaticano

Um dia, como nos conta S. João, no seu Evangelho, Jesus disse de Si mesmo: "Eu sou a porta" (10, 9). Trata-se de uma metáfora, sem dúvida, mas que significa?

Às vezes deparamo-nos com portas fechadas, e não sabemos o que está do lado de lá. Mas também há portas que se abrem, e dão acesso a um mundo inesperado, surpreendente. Nas Basílicas romanas e nas Catedrais há uma Porta Santa, que só se abre nos grandes Jubileus, e representa o passo do pecado à redenção, da morte à vida, do não crer à fé.

Que quer então transmitir-nos Jesus, ao dizer: "Eu sou a porta"? Um primeiro significado parece evidente: Jesus é a porta por onde se passa e por onde se entra. É preciso passar por Jesus para entrarmos na vida, para sermos salvos.

Quando Jesus diz: "Eu sou a porta", ensina-nos que só Ele é o Salvador, enviado pelo Pai. Na vida humana há muitos caminhos, que às vezes parecem autênticos labirintos, mas há um único acesso seguro para a vida de comunhão com Deus, e não é secreto, só acessível a alguns, não está oculto, nem está fechado, mas aberto de par em par: este acesso é Jesus Cristo, caminho único de salvação.

Ao longo dos tempos houve muitos profetas, e houve muitos fundadores de religiões que ainda hoje têm inúmeros seguidores, mas só a Jesus se podem aplicar estas palavras de um Salmo do Antigo Testamento: "Esta é a porta do Senhor: os justos entrarão por ela" (Salmo 117 [118], 20).

É este o ensinamento do próprio Jesus Cristo no Evangelho de S. João: "Quem entrar por Mim, será salvo". É preciso passar por Jesus, para termos a vida. E Jesus di-lo ainda mais claramente um pouco depois: "«Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância»". Jesus é a fonte de uma vida abundante, de uma vida plena. Jesus quer dar-nos esta vida, mas será que a desejamos, será que a aceitamos?

Numa passagem dos Actos dos Apóstolos (cap. 2), aparece uma grande multidão de pessoas, que, ao ouvirem o anúncio de que Jesus tinha sido glorificado pelo Pai como Senhor e Messias, isto é, tinha ressuscitado, e depois de terem sentido a profunda dor de terem colaborado na morte de Jesus, perguntaram a S. Pedro e aos outros apóstolos: "«Que havemos de fazer, irmãos?»" E S. Pedro respondeu serenamente: "«Convertei-vos, e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo»".

É necessário que também nós hoje perguntemos: "«Que havemos de fazer?» É necessário que cada um de nós pergunte, diante de Jesus ressuscitado: "Que hei-de fazer?"

Para muitos, Jesus ressuscitado pode reservar surpresas, pedidos inesperados, ou chamamentos que talvez já lá estivessem no fundo do coração, mas que ó um dia, quando Deus o quer, se tornam nítidos, claros, evidentes.

Alguns cristãos podem sentir num determinado momento, com grande força, que Deus os chama a dedicar toda a vida ao seu serviço, em especial como sacerdotes.

Escreveu há uns anos o Papa Francisco: "O povo de Deus precisa de ser guiado por pastores que gastem a sua vida ao serviço do Evangelho. Por isso, peço às comunidades paroquiais, às associações e aos numerosos grupos de oração presentes na Igreja: sem ceder à tentação do desânimo, continuai a pedir ao Senhor que mande operários para a sua messe e nos dê sacerdotes enamorados do Evangelho, capazes de se aproximar dos irmãos, tornando-se assim sinal vivo do amor misericordioso de Deus" (Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações 7 de Maio de 2017 - IV Domingo da Páscoa).

E conclui: "Maria Santíssima, Mãe do nosso Salvador, teve a coragem de abraçar este sonho de Deus, pondo a sua juventude e o seu entusiasmo nas mãos d'Ele. Que a sua intercessão nos obtenha a mesma abertura de coração, a prontidão em dizer o nosso "Eis-me aqui" à chamada do Senhor e a alegria de nos pormos a caminho, como Ela (cf. Lucas 1, 39), para O anunciar ao mundo inteiro".

Peçamos a Nossa Senhora, neste mês que lhe é dedicado, que interceda por nós junto de Deus, para que seja travada a pandemia, e para que a sua superação seja acompanhada, não só por uma retoma da vida económica, cultural, artística, desportiva, etc., mas também, e sobretudo, por uma sincera conversão interior, por uma mudança de vida naquilo em que a vida tiver de mudar, e, como resultado disso, por uma redescoberta da graça da fé, e, por meio dela, da verdadeira alegria de que andamos tão arredados e tão esquecidos.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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