14 de Janeiro de 2018 - Domingo II do Tempo Comum

«Vinde e vede»

Depois do baptismo de Jesus, João Baptista não podia ficar em silêncio, não podia guardar para si aquele segredo que ainda mais ninguém conhecia. João tinha visto o Espírito Santo, como uma pomba, descer sobre Jesus, e tinha conhecido intimamente quem era Jesus e qual era a sua missão: João soube que Jesus era antes dele e tinha passado à sua frente. Jesus era o Filho e também o Servo que Se vinha entregar para nos purificar dos pecados. E não esperou muito tempo para o revelar. Logo no dia seguinte, "vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus»". Naquele momento, João tinha consigo dois dos seus discípulos, e estes, mal ouviram aquelas palavras, deixaram-no, "e seguiram Jesus". Subitamente João ficou só, mas não deve ter ficado triste, mas sim alegre, por ter encaminhado para Jesus os passos daqueles dois jovens que procuravam a verdade, que procuravam a vida, que procuravam Deus.


Quem segue Jesus não é como que levado pelo vento, ou arrastado pela tradição, por um costume, por uma inércia que não consegue dominar. Nenhum de nós é cristão por acaso ou por inércia. Por acaso ou inércia pode-se ser ateu ou agnóstico, é cómodo, não exige muito, mas quem é cristão tem de se mexer, tem de sair de onde está, tem de pôr os pés ao caminho e seguir Jesus, com um anseio muito profundo, com um grande desejo no coração.

Jesus não quis que aqueles dois homens O seguissem sem saber por que o faziam, ou que eventualmente viessem iludidos, enganados, julgando que, estando com Jesus, pudessem um dia vir a ser ricos, famosos, poderosos. Logo que deram os primeiros passos, Jesus voltou-Se, "e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: "Que procurais?" E essa pergunta também a faz a nós, hoje: "Que procurais?» E a única resposta só pode ser, também hoje: 'é a Ti que procuramos, Senhor, é a Ti que buscamos, é conTigo que queremos estar. Não queremos mais nada, só Te queremos a Ti'. Ser cristão é desejar estar com Jesus, e, como Jesus vai à nossa frente, seguimos atrás d'Ele, e até corremos um pouco, se for preciso, para O alcançar.

Foi o que os dois discípulos fizeram, e quando Jesus lhes perguntou: «Que procurais?» (e é bom notar que estas são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de S. João), responderam: "«Rabi - que quer dizer 'Mestre' - onde moras?»". Estas palavras significam que queriam passar a estar com Ele.

Não tinham nenhum interesse oculto. Onde Jesus estivesse, queriam estar, Como Jesus vivesse, queriam viver. Só desejavam isso, nada mais. Também Samuel, de quem nos fala a primeira leitura, só queria ouvir a voz de Deus: "«Falai, Senhor, que o vosso servo escuta»". E a Sagrada Escritura diz-nos que Samuel ouviu atentamente e cumpriu muito fielmente, por vezes em circunstâncias duras e difíceis, toda a palavra que lhe chegou de Deus.

Mas agora Jesus voltou-Se, viu junto de Si estes dois primeiros discípulos, e correspondendo ao seu desejo, disse-lhes: "«Vinde ver»". Onde Jesus mora, só se sabe vendo. Como Jesus é, só se sabe estando com Ele. Às vezes há pessoas que abandonam a fé, mas isso só tem uma explicação: nunca chegaram a estar com Jesus, nunca O conheceram intimamente. S. João, que nos transmite este relato, nunca mais se esqueceu deste primeiro momento em que esteve com Jesus: "era por volta das quatro horas da tarde": muitos anos depois, ainda sabe exactamente a que horas foi. Quem algum dia esteve com Jesus, pode passar por muitas coisas na vida, pode até, infelizmente, desviar-se algum tempo do caminho, às vezes até muitos anos, mas nunca se esquece do que já viveu, e um dia volta de novo, porque a atracção de Jesus nunca esmorece, e o desejo de estar com Ele é mais forte do que qualquer outro.

Quando estamos com Jesus, tudo se torna muito mais simples e claro. Há certas formas de estar e de viver que fazem grande confusão a quem está de fora, mas, para quem está com Jesus tornam-se tâo simples! Isso não significa que sejam fáceis, ou que dispensem um esforço de conversão. Mas percebe-se intimamente, claramente, que essa é a verdade, e que é assim que se deve viver.

É o caso da virtude da castidade, de que fala S. Paulo, na 2ª leitura, e de tantas outras formas de estar e viver no mundo. Os nossos corpos, diz S. Paulo, não são para a imoralidade, mas "para o Senhor". Isto significa que a união dos corpos só pode ser o sinal de um entrega total, essa entrega em que o homem e a mulher se dão "no Senhor".

Enquanto não houver essa entrega total, essa união ainda não é verdadeira, e falseia o amor. Este ensinamento que nos vem do Espírito Santo através de S. Paulo tem uma grande força e uma grande beleza, Os namorados e noivos que se dispõem a vivê-lo, embora sentido a sua exigência, fazem-no com alegria, sabendo que assim agradam a Jesus, e na sua luz descobrem toda a grandeza e plena verdade do amor humano que estão a viver, em direcção a uma aliança plena, "no Senhor".

Se aceitamos a graça de «morar com Jesus», tudo se «reorganiza. na nossa vida e ganha um novo sentido. Além disso, somos purificados, limpos, perdoados. Somos salvos! Compreende-se que um dos dois primeiros, André, Irmão de Simão Pedro, tenha rapidamente ido ao encontro do Irmão, o próprio S, João, a quem disse: "«Encontrámos o Messias», que quer dizer 'Cristo', e levou-o a Jesus", Este movimento é natural e espontâneo, e ao mesmo tempo necessário, urgente! Precisamos de dizer aos nossos irmãos e amigos: «Encontrámos o Messias». Qualquer cristão o pode fazer, mesmo a um desconhecido, numa praça, numa rua da cidade, num centro comercial, e só Deus sabe o impacto que esse primeiro anúncio pode ter, mas o melhor é que seja um amigo, a fazê-lo a outro amigo, numa base de confiança e confidência, para que ambos se ponham a caminho, ao encontro de Jesus.

Quando André levou a Jesus o seu Irmão, Jesus fitou os olhos nele profundamente, chamou-o pelo nome: "«Tu és Simão»", e deu-lhe um novo nome: "«Chamar-te-ás Cefas, que quer dizer Pedro»", Jesus deu-lhe este nome, porque um dia, apesar das suas debilidades, Simão Pedro seria o fundamento e o apoio firme de toda a comunidade dos discípulos de Jesus, a sua Igreja, como são chamados a sê-lo, ao longo dos tempos, os seus sucessores. Por isso pedimos que também hoje, sob a condução do papa Francisco, a Igreja faça chegar ao coração de todos os homens o anúncio do mistério de Deus e a oferta da graça de Cristo, Cordeiro oferecido no altar da Cruz para nos dar o perdão dos nossos pecados.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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