11 de Novembro de 2018 - Domingo XXXII do Tempo Comum

Entregar a vida nas mãos de Deus

A nossa vida é muito especial, sobretudo por duas razões: primeira, porque é única, isto é, não se repete; e depois porque não termina nunca, ou melhor, termina na Terra, mas, depois desta vida terrena, começa a vida eterna, que não terá mais fim.

A 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus, diz muito claramente: "Está determinado que os homens morram uma só vez e a seguir haja o julgamento". Não há multiplicidade de vidas, mas uma só vida.

Cada ser humano, homem ou mulher: vive uma só vez, e morre uma so vez, e é então que, na sua alma pessoal e imortal, comparece diante do seu Criador e justo Juiz, que é também Pai de infinita misericórdia.


Mattia Preti, A oferta a Elias da viúva de Sarepta, Palácio Episcopal de Brindisi (séc. XVII)

Há outras concepções da vida, opostas ao cristianismo, como a do hinduísmo, do budismo e do jainismo, e também do taoísmo chinês, que se referem à passagem ou «viagem» de uma mesma alma através de vários seres humanos e até mesmo de animais e plantas.

Esta passagem ou «viagem», impropriamente chamada reencarnação, (o nome certo seria «metempsicose»), alimenta ilusoriamente o imaginário de muitas telenovelas, mas só porque os seus autores não sabem do que estão a falar, e parece-me algo de muito perturbador e sombrio, porque nunca se sabe quando chega ao fim.

Esta viagem de uma alma, que não é pessoal, porque vai sucessivamente «emigrando» para outros seres, em função dos actos praticados, só terminaria quando conseguisse a perfeita purificação. E que lhe aconteceria então? Só teria a esperar a dissolução ou fusão no Todo cósmico ou no Nirvana, em que o eu não existe, e que aconteceria tão total e radicalmente como o sal se dissolve na água ou como o néctar das flores se funde e confunde no mel fabricado pelas abelhas...

A fé cristã rejeita esta dissolução da nossa individualidade, que subsiste na alma espiritual, e da própria existência distinta e única de cada um de nós. Nunca deixaremos de ser aquele que somos, quer neste mundo, quer na eternidade. E, em função do modo como vivermos neste mundo, esta poderá ser de plena felicidade e luminosa contemplação, ou de total separação da luz, da vida e do amor.

Este ensinamento da fé dá-nos um grande sentido de responsabilidade. Só temos uma vida, e temos de a viver bem. E como não temos todo o tempo do mundo, não o podemos desperdiçar, temos de o fazer render ao máximo, não para ter muitas coisas, não necessariamente para fazer muitas coisas - embora seja bom fazer muitas coisas boas - mas para ser mais, para sermos melhores, para sermos santos.

Se não formos santos, teremos perdido o tempo, e poderemos ter posto em perigo a própria eternidade. Dizer que temos de ser santos, não significa que sejamos perfeitos, até porque seremos sempre imperfeitos e inevitavelmente cometeremos erros.

Mas ser santos significa confiar plenamente em Deus e procurar agradar-Lhe em tudo, lutando por nunca O ofender. Significa pedir o seu perdão, mediante uma Confissão contrita, quando erramos e pecamos, e recomeçara caminhar, alimentados pela Eucaristia, que é o Pão dos peregrinos.

Ao deitar no tesouro do templo tudo o que tinha, a pobre viúva de que fala o Evangelho realizou um gesto, que só Jesus pôde conhecer e a testemunhar, de plena e absoluta confiança em Deus, em cujas mãos entregou definitivamente a sua vida.Esta mulher, tal como a viúva de Sarepta, que deu ao profeta Elias todo o alimento que lhe restava, conseguiu superar toda a ambição e todo o temor. O seu coração estava totalmente cheio de Deus.

Quanto a nós, não teremos que imitar materialmente a viúva pobre, mas temos que ter gestos ousados, gestos confiantes, gestos generosos. Não podemos ter critérios calculistas, egoístas, utilitaristas, mas cultivar uma grande liberdade interior, para podermos amar a Deus e servi-Lo acima de todas as coisas. Quando reservamos tempo para a oração, quando não renunciamos à Missa no Dia do Senhor ou até em cada dia, quando sentimos a Igreja como nossa e procuramos construi-la e defendê-la, quando intervimos activamente na sociedade como cristãos e cidadãos responsáveis, quando estamos dispostos a partilhar sem mesquinhez o nosso tempo, as nossas capacidades e também os bens que temos, quando aceitamos que Deus nos chame e nos revele a sua vontade, estamos a jogar a vida nas suas mãos.

Pode parecer muito arriscado «jogar» a vida, mas entregar a vida nas mãos de Deus compensa sempre, porque, em resposta, Deus dá-Se a Si mesmo, e não só por um tempo, mas por toda a eternidade.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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