20 de Maio de 2018 - Domingo de Pentecostes

A criação do homem novo

Cinquenta dias depois da Páscoa, voltamos hoje a partilhar a alegria dos discípulos, que viram Jesus vivo, ressuscitado de entre os mortos. Diz S. João: "Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor". O seu testemunho foi dado a muitos pessoalmente, e também ficou escrito nas páginas do Evangelho, e por estas duas vias chegou até nós, e por isso a sua alegria também nos tocou e nos «contagiou» a nós.

A seguir, S. João conta que Jesus "soprou sobre eles". Terão percebido o significado deste gesto simbólico? Sim, devem ter pensado no que diz o Génesis sobre a criação do homem (Gen 2, 7): foi esse «soprar» de Deus sobre o homem que fez do ser humano este ser tão especial, fisicamente parecido com alguns outros, mas na verdade tão diferente de todos os outros, este ser com uma inteligência capaz de conhecer todas as coisas, e com um coração capaz de amar, capaz de se entregar, este ser de matéria e de espírito, único em todo o universo, capaz de conhecer e amar o próprio Deus!


Matthew Alderman, Pentecostes

E os discípulos podem ter pensado: «Será que Jesus, ao soprar sobre nós, quer criar o homem novo?» Sim, Jesus ressuscitado não nos quer deixar como éramos antes, ou apenas um pouco melhores. Já éramos um ser especial, embora, pelo mau uso da nossa liberdade, também fôssemos inclinados para o mal, e até por vezes dominados pelo mal, pecadores. Mas Jesus quis-nos fazer viver de um modo novo. Não é uma utopia. Não é fatal que sejamos dominados pelo mal. Por isso, depois de soprar sobre eles, Jesus disse-lhes: "«Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, serão retidos»".

Simbolizado pelo sopro visível de Jesus ressuscitado, o Espírito invisível, que é o Espírito eterno do Pai e do Filho, é dado aos discípulos, para que por Ele perdoem os pecados de todos os que se converterem, e assim façam da humanidade antiga, pecadora e decaída, uma humanidade nova, uma humanidade renascida.

É preciso voltar constantemente a esta intenção de Jesus Cristo: Ele é o Filho de Deus, mas é também o Homem Novo, e é como Jesus que todos nós somos chamados a ser. Mas, só por nós mesmos, nunca o conseguiríamos, por mais que tentássemos, por mais que «evoluíssemos»! Uma evolução lenta ou gradual nunca nos faria mudar a esse ponto, só uma «mutação» profunda é que o conseguiria, não a nível biológico, evidentemente, mas no plano do nosso ser mais íntimo.

Por isso Jesus deu à Igreja o seu Espírito, para que, actuando de um modo invisível e silencioso, opere em nós esta mudança decisiva, e nos renove ao nível mais profundo do nosso ser. No Salmo responsorial da Missa de hoje, cantámos: "Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a Terra". Mas a Terra que pedimos que o Espírito renove, não é a Terra das plantas e dos animais, dos mares, dos rios e dos montes, é a Terra dos homens, e o que Lhe pedimos é que renove intimamente todos os homens e mulheres: que os renove e os recrie, para que Jesus ressuscitado viva neles e por eles. Como é importante e necessário continuar a pedir: "Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a Terra". Com que intensidade temos de c<;mtinuar a pedir, no nosso tempo: "Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a Terra"!

Na tarde do Domingo de Páscoa, o Espírito Santo, o Espírito invisível do Pai e do Filho, enviado por Jesus, iniciou a sua acção silenciosa no coração dos Apóstolos, mas, cinquenta dias depois, naquele primeiro Domingo de Pentecostes, manifestou alguns sinais do seu poder e do imenso alcance da sua acção no mundo. Naquela manhã, os Apóstolos sentiram essa presença do Espírito como um vento forte, como uma rajada impetuosa, e também como um fogo ardente, repartido por muitas chamas, por muitas "línguas de fogo", que ardiam, mas não queimavam, antes pousavam suavemente sobre cada um deles.

S. Lucas diz que "todos ficaram cheios do Espírito Santo", e "começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem". A experiência dos que ouviram, segundo o mesmo relato, foi que "cada qual os ouvia falar na sua própria língua". No final, depois de uma longa lista de povos, houve alguém que exclamou, com admiração: "Tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus".

Foi um sinal poderoso e inesquecível, que ficou para sempre gravado na memória viva da Igreja, a indicar que o Espírito Santo não só renova cada homem que se converte a Cristo, mas também renova e reconstrói as relações entre os homens, que as circunstâncias da vida separam de tantos modos, mas que poderão unir-se de uma forma inteiramente nova pelo conhecimento das "maravilhas de Deus" realizadas em Jesus, Filho de Deus e Redentor do homem. Todos eles já eram crentes, mas dispersos, vinham da diáspora judaica, mas o Espírito aproximou-os, para os abrir ao conhecimento de Jesus e à sua graça.

Celebrar o Pentecostes abre-nos mais à acção do Espírito Santo, para que nos renove intimamente, e compromete-nos ainda mais no anúncio do Evangelho, para que todos encontrem Jesus Cristo, e na sua Igreja se sintam unidos e irmãos de todos os outros homens. Ao longo dos séculos, povos de todos os lugares encontraram na Igreja uma casa comum e uma famnia de laços humanos e sobrenaturais onde ninguém é estranho e todos se sentem em casa, onde todos se sentem filhos e irmãos. Que continue a ser assim hoje, num mundo tão diferente de outros tempos, e o Espírito Santo atraia para Jesus, na Igreja, homens e mulheres de todas as culturas, do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, crianças e jovens, adultos e idosos. Que o Espírito Santo, pelo seu poder, renove a face da Terra, e dê a todos a alegria do perdão e a graça de uma vida nova, pela união com Jesus ressuscitado.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo