15 de Julho de 2018 - Domingo XV do Tempo Comum

Um testemunho que se oiça

Há um contraste interessante nas leituras de hoje: um profeta que não o queria ser, nem entendia por que é que estava ali, mas que não fugiu da missão que Deus lhe confiou; e os 12 Apóstolos de Jesus, que partiram sem levar nada nas mãos, "a não ser o bastão", e, sem discutir nem se questionar, se desempenharam de uma missão muito superior às suas capacidades: "pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes, e curaram­nos".


J. Tissot (1836-1902), O envio dos discípulos

A grande diferença entre Amós e os Apóstolos, é que Amós é um profeta solitário: vai em nome de Deus, mas está sozinho, contra o resto do mundo. Ao passo que os Apóstolos, mesmo sem terem naqueles dias Jesus fisicamente com eles, estavam sempre com Jesus, e era Jesus que actuava neles e por meio deles.

Nós, cristãos, admiramos Amós, e sofremos com as perseguições que ele, como tantos outros, teve de suportar. No entanto, não somos nem nos sentimos profetas solitários. Actuamos sempre em nome de Jesus, na Igreja, e por isso tudo nos parece normal, natural, mesmo as missões mais extraordinárias.

É natural que hoje Jesus ressuscitado espere muito de nós, seus discípulos. E o primeiro que espera, é que O anunciemos, não de um modo vago, impessoal, mas com a nitidez inconfundível do seu rosto e da sua voz.

Hoje não basta «ser», «viver». É claro que primeiro é o «ser», o «viver», mas depois é preciso dizer, falar, anunciar. O nosso modo de viver como cristãos não diz já muito? Sim, mas ainda é preciso dizer mais. O nosso modo de viver é um testemunho silencioso, mas os outros também precisam, além disso, de um testemunho que se oiça e que se entenda.

Quando alguém parece achar que tudo isto - o universo, a terra, a vida, o ser humano - não passa de um acaso espantoso, é preciso que alguém diga, com palavras de Bento XVI, que "nós não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é O fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário". Por isso, "não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade".

A palavra confirma a vida e, com amizade, lança um desafio. Quando falamos, é como se disséssemos: «Pensa nisto. Admite que é verdade. Não muda tudo?»

S. Paulo diz-nos que Deus "nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença". Mas, se fomos escolhidos para sermos santos, deve ser preciso mudar muitas coisas na nossa vida. Por isso, a primeira coisa que os apóstolos fizeram, foi "pregar o arrependimento".

Seremos capazes de o fazer também nós? Sim, talvez haja uma ocasião oportuna para dizer a este ou àquele: «Não leves a maio que te vou dizer, responde se quiseres: Será que esta vida que levas te faz mesmo feliz...?» E talvez aqui comece uma conversa, que um dia os levará até aos braços de Jesus. "N'Ele, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados", diz ainda S. Paulo. Nela a vida recomeça. Não há maior alegria do que recomeçar de novo, pela força do perdão de Deus, para reaprender a amar.

Jesus foi rejeitado por alguns, mas nós somos do grupo daqueles que querem estar ao seu lado, em todas as horas. Vamos pedir à Virgem Maria, sua Mãe, que tenhamos a audácia necessária para falar d'Ele aos outros, a paciência para não desistir diante de nenhuma dificuldade, e a esperança de começarmos e recomeçarmos todos os dias, na amizade e intimidade com Jesus, que nos leva muito mais longe do que nós poderíamos pensar.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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