18 de Novembro de 2018 - Domingo XXXIII do Tempo Comum

A meta final

Do Comentário ao Credo,
de S. Tomás de Aquino:

É muito conveniente que a declaração das verdades que em que devemos crer termine por este artigo­"Creio na Vida eterna" ­porque a vida eterna é também a meta final de todos os nossos desejos. Opõe-se essa verdade àqueles que afirmam que a alma morre com o corpo. Se esta afirmação fosse verdadeira o homem teria a mesma condição dos animais, o que não faz sentido.


Vamos agora considerar em que consiste a Vida eterna, (e, depois, no que consiste a morte eterna). Convém saber, em primeiro lugar, que na Vida eterna o homem se une a Deus, já que é próprio de Deus o prémio e a finalidade de todos os nossos trabalhos aqui na terra. Esta comunhão consiste na perfeita visão. Consiste também no supremo louvor, como diz Santo Agostinho: "Veremos, amaremos e louvaremos" (De Civ. Dei, 22).

Sabemos que na Vida eterna, em segundo lugar, há a perfeita satisfação dos nossos bons desejos. A razão disto é que ninguém pode, nesta vida, ter os seus desejos satisfeitos, e nunca um bem criado sacia o desejo humano de felicidade. Somente Deus o pode saciar, e o faz excedendo infinitamente.

Por isso, esse desejo não é satisfeito senão em Deus, conforme escreve Santo Agostinho: "Fizestes-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto até que repouse em Vósn (Conf. I). Como os santos na pátria possuirão perfeitamente a Deus, evidentemente o seu desejo será saciado e ainda ultrapassado em glória. Eis porque se lê no Evangelho: "Entra no gozo do teu Senhorn (Mt 25, 21). Santo Agostinho acrescenta ainda: "Não é o gozo pleno que entrará nos que o irão desfrutar, mas estes é que entrarão plenamente no gozo". Tudo o que já hoje nos pode fazer felizes, haverá aí plena e superabundantemente.

A Vida eterna consiste, em terceiro lugar, na perfeita segurança. Neste mundo não há segurança perfeita, porque, quanto mais se possuem muitos bens, e quanto mais alguém se eleva, tanto mais se enche de temor e necessita de mais coisas. Não haverá, porém, na Vida eterna, nem tristeza, nem trabalhos, nem temor.

Consiste a Vida eterna, em quarto lugar, na sociedade alegre de todos os bem-aventurados, na mais amável das sociedades, porque cada qual possuirá todos os bens em comunhão com os outros. Cada um amará o outro como a si mesmo; por isso, alegrar-se-á com o bem alheio, como se fosse o seu.

Desse modo, quanto mais crescerem o gozo e a alegria de um, tanto mais aumentará o gozo de todos. Tudo o que aqui foi descrito, osjustos o terão na pátria, e, além disso, muitos outros bens inefáveis.

Quanto aos maus, isto é, os que irão para a morte eterna, as suas dores e castigos não serão em menores proporções que o gozo e a alegria dos bons. É muito grande a pena dos maus, em primeiro lugar, pela separação de Deus e pela privação de Deus e pela privação de todos os bens. Esta é a pena do dano, que corresponde a aversão à Deus, maior que a pena dos sentidos. Lê-se no Evangelho: "Lançai o servo inútil nas trevas exteriores" (Mt 15, 30). Os maus, nesta vida, possuem as trevas interiores, isto é, pecado; no inferno, estarão nas trevas exteriores.

É muito grande a pena dos maus, em segundo lugar, pelo remorso da consciência. É aumentada ainda mais, em terceiro lugar, a pena dos maus, pela fortíssima pena dos sentidos, que atormentará a alma e o corpo. E um castigo dolorosissimo, conforme relatam os santos. Os condenados estarão sempre como que morrendo, mas jamais morrerão, e até sem a possibilidade de morrerem. Por isso a condenação é chamada de morte eterna. Estarão os condenados sofrendo sempre no inferno dores terríveis como as que envolvem os moribundos.

Aumenta ainda mais a pena, em quarto lugar, com o desespero da salvação. Se a elas fosse dada a esperança de libertação da pena, a pena ficaria, por certo, mitigada. Mas como toda esperança lhes foi tirada, a pena torna-se pesadíssima. Evidencia-se, desse modo, a diferença entre fazer o bem e fazer o mal: as boas obras conduzem à vida, as más, porém, arrastam para a morte.

Deveríamos sempre evocar no nosso espírito todas essas verdades, porque, ao fazê-lo, seríamos estimulados para fazer o bem, e para repelir o mal. De modo concludente e muito significativo colocou-se no término do Credo a Vida eterna, para que ela fique cada vez mais gravada em nosso espírito, para a qual nos conduza Nosso Senhor Jesus Cristo, O Deus bendito pelos séculos dos séculos.

S. Tomás de Aquino, Comentário ao Credo
(adaptado)

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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