23 de Julho de 2017 - 16º Domingo do Tempo Comum

Bons desejos

Na parábola do trigo e do joio, Jesus ensina-nos, em primeiro lugar, que o mal não é 'normal'. O mal aparece de modo 'anormal' onde não devia existir. "«Foi um inimigo que fez isso»", diz o dono do campo aos seus servos.

A tristeza deste agricultor e dos seus colaboradores é também a nossa, ao olharmos um imenso campo -que é o mundo - onde só devia haver bom trigo, mas onde também há, misturado com o trigo, uma enorme quantidade de joio venenoso. Há tanto mal no mundo! E não devia haver!

Mas, em segundo lugar, Jesus ensina: também que só "na altura da ceifa", isto é, no fim dos tempos, o joio será definitivamente apanhado e atado em ti, molhos para queimar. E só então o bom trigo será recolhido no celeiro de Deus.


Ao saberem isto, a tristeza dos servos do dono do campo deve ter aumentado ainda mais. E a nossa também! Afinal, Jesus ensina-nos que não podemos arrancar totalmente o mal do mundo. Até porque, às vezes, nos poderíamos enganar, e arrancar também o bom trigo juntamente com o joio. Só a Deus compete esse juízo definitivo das acções humanas. Temos que esperar pelo fim dos tempos!

Mas não devemos ficar tristes, porque isso não significa que não possamos fazer nada. Podemos fazer muito! Concretamente, podemos transmitir claramente aquilo em que acreditamos, e que sabemos que é conforme com a verdade e com o projecto de Deus. Enquanto decorre otempo do mundo, enquanto não chega o fim da história - a do mundo e a nossa pessoal - em que Deus julgará infalivelmente todas as acções e até os mais secretos pensamentos dos homens, todos nos podemos converter e santificar. Ao Espírito Santo confiamos a nossa conversão e a de todos os homens de todos os tempos. Espírito Santo, convertei-me. Espírito Santo, santificai-me! Espírito Santo, convertei o mundo, Espírito santo, santificai o mundo!

Do Espírito Santo nos fala hoje S. Paulo na 2ª leitura. Continuamos a ler o capítulo 8 da Epístola aos Romanos, e, no passo de hoje (v. 26-27), S. Paulo diz-nos que "o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza". Há com certeza muitos sintomas desta nossa fraqueza, mas aqui S. Paulo salienta sobretudo este: "Não sabemos que pedir nas nossas orações". Uma tradução mais fiel deste passo seria: "Não sabemos o que havemos de pedir como convém".

Na verdade, seria errado dizer que não sabemos o que pedir, porque Jesus, no Pai Nosso, ao ensinar-nos a rezar, mostrou-nos quais são os pedidos mais importantes e mais necessários que podemos fazer a Deus. Mas pode acontecer que, embora sabendo o que devemos pedir, em geral, possamos não o saber no nosso caso particular.

O próprio S. Paulo é um exemplo impressionante desta dificuldade. Em 2 Coríntios 12, 7-9, fala de um grande motivo de sofrimento que teve, a que chama "um espinho na carne". Não sabemos exactamente o que seria, mas devia ser um sofrimento muito grande, a ponto de o atribuir a "um anjo de Satanás". Há pessoas que pensam que se tratava de uma doença nos olhos que o humilhava no contacto com as outras pessoas, mas esta é uma simples hipótese.

No entanto, era uma situação tão difícil e tão dura, que S. Paulo pediu "por três vezes", isto é, intensamente, que Deus o livrasse, mas ouviu esta resposta: "Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela a minha força". Portanto, também S. Paulo precisou de ser auxiliado e inspirado pelo Espírito Santo nas suas orações. E precisou de ser fortalecido, para aceitar tudo o que Deus lhe pedia e confiar plenamente na sabedoria de Deus.

Esta oração segundo o Espírito e não segundo os nossos gostos de momento ou os nossos critérios pessoais pode não ser fácil, pode-nos custar, e por isso S. Paulo diz a seguir que "o próprio Espirito intercede por nós com gemidos inefáveis", isto é, por meio de inspirações interiores e silenciosas, que não se traduzem por palavras.

À luz deste texto, podemos ambicionar que a nossa oração seja cada vez mais inspirada pelo Espírito Santo.

S. Tomás de Aquino, no seu comentário à Epístola aos Romanos, diz que o Espírito Santo nos ensina a rezar, "na medida em que inspira em nós bons desejos". E depois explica que a oração "é uma espécie de explicitação dos desejos". É na oração que explicitamos os nossos desejos mais íntimos. Mas serão desejos bons? Serão desejos maus?

Mas deixemos agora os maus e pensemos só nos bons. Qual é a fonte dos desejos bons, dos desejos justos? Responde S. Tomás: "Os desejos justos provêem do amor de caridade que o Espírito Santo produz em nós. S. Paulo diz que "a caridade de Deus foi difundida nos nossos corações, pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Romanos 5, 5). Ora, quando o Espírito Santo dirige e estimula o nosso coração, os nossos desejos só podem ser bons e úteis para nós".

Peçamos, por intercessão da Virgem Maria, que o amor de Deus encha e inunde cada vez mais o nosso coração, para que a nossa oração, inspirada pelo Espírito, seja escutada por Deus, e a nossa vida Lhe possa ser agradável e se torne cada vez mais uma fonte da verdadeira alegria para nós e para os outros.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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