25 de Junho de 2017 - 12º Domingo do Tempo Comum

1. S. Mateus conta-nos no Evangelho de hoje que Jesus disse aos seus apóstolos "«Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma»". E pouco antes tinha dito: "«Não tenhais medo dos homens»".

Ao longo dos séculos, houve muitos cristãos que não tiveram medo. Sofreram perseguições, e muitos deles perderam a vida, mas não tiveram medo. Vou agora recordar-vos um exemplo apenas, entre muitos outros.


Igreja de Tabgha.O mosaico com o cesto de pães flanqueado por dois peixes
pode datar-se de finais do sec. V e principios do VI

Um dia, numa cidade chamada Abitene, que ficava na província romana da «África proconsular», actualmente Tunísia, abateu-se sobre os cristãos a perseguição do imperador Diocleciano, e muitos preferiram morrer a serem infiéis a Jesus. A ordem do imperador era esta, como se lê nas Actas dos Mártires: «deviam entregar os textos sagrados e os santos testamentos do Senhor e as divinas Escrituras para que fossem queimados; deviam ser derrubadas as basílicas do Senhor, deviam-se proibir a celebração dos ritos sagrados e as santíssimas reuniões do Senhor».

Estamos no ano 303. Já tinha havido antes outras perseguições, mas nos últimos tempos tinha-se registado uma certa acalmia. Subitamente, porém, tudo mudou, e em todo o Império ateou-se como um incêndio devastador uma nova perseguição. Em Abitene, um grupo de 49 cristãos desobedeceu à ordem do imperador. Entre eles havia um senador, Dativo, um presbítero, Saturnino, uma mulher consagrada a Deus, Vitória, e um leitor, Emérito. Todos se reuniam semanalmente na casa de um deles para celebrar a Eucaristia dominical.

Mas houve um dia em que foram surpreendidos numa de suas reuniões na casa de um deles, foram presos e levados a Cartago, à presença do procônsul Anulino para serem interrogados. O procônsul perguntou-lhes se possuíam em suas casas as Escrituras, e eles confessaram com valentia que «as guardavam no coração», mostrando que não desejavam separar de modo algum a fé da vida.

Entre os testemunhos ficou na memória de todos o de Emérito, que afirmou sem temor que tinha acolhido os cristãos para a celebração. O procônsul perguntou-lhe: «Por que acolheste em tua casa os cristãos, transgredindo as disposições imperiais?». E Emérito respondeu: «Sine dominico non possumus», que se pode traduzir assim, simplesmente: «Sem o domingo não podemos viver». É uma resposta muito bonita, mas podemos aprofundá-la em todo o seu significado.

2. Na verdade, a palavra «dominicum» encerra um triplo significado: refere-se ao dia do Senhor, que é o que significa a palavra «Domingo», mas remete também para o que constitui o seu conteúdo: a sua ressurreição e sua presença no acontecimento eucarístico. Naquela altura não havia ainda propriamente um mandamento de ir à Missa ao domingo, como a Igreja dispôs mais tarde, mas estes cristãos, homens e mulheres, que morreram mártires, depois de sofrerem grandes tormentos, sentem e declaram que a Eucaristia dominical é um elemento constitutivo da sua identidade cristã, e que não há vida cristã sem o domingo e sem a Eucaristia.

Há anos, em Bari, o Papa Bento XVI comentou este impressionante testemunho, e observou que as palavras de Emérito: «Sem o domingo não podemos viver», significam também que, "sem nos reunirmos em assembleia ao domingo para celebrar a Eucaristia, não podemos viver. Faltar-nos-iam as forças para enfrentar as dificuldade quotidianas e não sucumbir". Não é fácil, para nós, hoje, viver como cristãos. Há muitos desafios e dificuldades que a vida nos coloca constantemente. Precisamos do Pão da Eucaristia, que é Jesus, para enfrentar os esforços e as fadigas da viagem. O Domingo, dia do Senhor, é o momento propício para irmos buscar forças a Jesus, que é o Senhor da vida.

Numa Audiência geral de há três anos (05.02.2014), disse o Papa Francisco: "Queridos amigos, nunca conseguiremos agradecer ao Senhor pelo dom que nos fez com a Eucaristia! É um grande dom e por isto é tão importante ir à Missa aos domingos. Ir à missa não somente para rezar, mas para receber a Comunhão, este pão que é o Corpo de Jesus Cristo que nos salva, nos perdoa, nos une ao Pai. É muito bom fazer isto! E todos os domingos, vamos à Missa porque é o próprio dia da ressurreição do Senhor. Por isto, o domingo é tão importante para nós. E com a Eucaristia sentimos esta pertença à Igreja, ao Povo de Deus, ao Corpo de Deus, a Jesus Cristo. Nunca terminará em nós o seu valor e a sua riqueza. Por isto, pedimos que este Sacramento possa continuar a manter viva na Igreja a sua presença e a moldar as nossas comunidades na caridade e na comunhão, segundo o coração do Pai. E isto faz-se durante toda a vida, mas tudo começa no dia da primeira comunhão. É importante que as crianças se preparem bem para a primeira comunhão e que todas as crianças a façam, porque é o primeiro passo desta forte adesão a Cristo, depois do Batismo e da Crisma".

3. O Evangelho diz-nos ainda que Jesus espera que demos testemunho d'Ele, espera que nos "declaremos" por Ele diante dos outros homens, em todas as circunstâncias. Um cristão não se deixa ficar em silêncio, quando é preciso falar claramente, quando é preciso manifestar o mistério de Cristo ou simplesmente defender a verdade e a dignidade do ser humano, em todas as suas dimensões. Muitas vezes fá-lo-emos na serenidade do diálogo com um amigo ou um grupo de amigos, e outras vezes vezes assumindo com outros uma posição pública, e até, se for necessário, saindo à rua, gritando bem alto o que achamos que deve ser defendido com todas as forças. "O que vos digo ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços", pede-nos também Jesus, no Evangelho de hoje.

Há muitos modos de testemunhar aquilo que vivemos, e que não podemos calar, porque sabemos que é bom e benéfico para todo o ser humano. E, quando se trata de falar de Jesus, é com fortaleza que nos dispomos a aceitar tudo o que for preciso, até ao dom da própria vida, se necessário, para Lhe sermos fiéis. E um dia experimentaremos a suprema alegria de Jesus nos apresentar ao Pai, e de nos convidar a contemplar a sua glória, que já hoje nos atrai e fascina, e nos desafia a começar de novo a caminhar em cada dia, com um amor sempre maior.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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