9 de Junho de 2019 - Domingo de Pentecostes

As várias línguas são os vários testemunhos de Cristo

De um sermão de Santo António de Lisboa no Domingo de Pentecostes:

«E todos ficaram cheios do espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimissem» (Actos 2,4).

«Os Apóstolos ficam repletos do Espírito Santo. Ele é o único que pode tornar cheia a alma, visto que nem o mundo todo a pode encher. Não recebem outro Espírito, porque não pode receber mais quem está cheio.


El Greco, Pentecostes (porm.)

Por isso, foi dito a Maria Santíssima: "Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres" (Lucas 1,28). Repara que, no meio das palavras: "cheia de graça" e "bendita és tu entre as mulheres", se diz: "o Senhor é contigo". O mesmo Senhor não só conserva interiormente a plenitude da graça, mas também opera, no exterior, a bênção da fecundidade, isto é, das obras santas. Com muita razão ainda, depois de "cheia de graça" se diz: "o Senhor é contigo", já que sem Deus nada podemos fazer ou possuir, nem sequer conservar o que possuímos. Por isso, depois da graça, é necessário que o Senhor esteja connosco, e guarde o que só Ele deu. Quando, pois, ao dar a graça, nos previne, somos seus cooperadores ao guardá-la. E Ele só vigia sobre nós quando também nós vigiamos com Ele. Aparece claro que o Senhor exige de nós esta vigilante cooperação, quando diz aos Apóstolos: "Não fostes capazes de vigiar comigo por uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Mateus 26,40-41).

Acertadamente se diz, portanto: "E todos ficaram cheios do Espírito Santo". D'Ele diz o Senhor no Evangelho de hoje: "Mas, o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse" (João 14,26). O Pai enviou o Paráclito em nome do Filho, isto é, para glória do Filho, para manifestar a glória do Filho. Ele vos ensinará, para que saibais; recordar-vos-á, isto é, exortar-vos-á, para que queirais. De facto, a graça do Espírito Santo dá o saber e o querer. Por isso, canta-se hoje na Missa: "Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis", para que possuam ciência, "e acendei neles o fogo do Vosso amor", para que queiram realizar o que tiverem aprendido. Canta-se ainda: "Enviai o Vosso Espírito, e todas as coisas serão criadas" com a Vossa ciência, "e renovareis a face da terra" com a boa vontade (cf Salmo 103, 30). Sobre estas duas coisas há concordância nas Lamentações de Jeremias: "Ele do alto enviou fogo sobre os meus ossos e me ensinou" (Lamentações 1,13). O Pai, no dia de hoje, enviou do alto, isto é, do Filho, o fogo, a saber, o Espírito Santo, sobre os Apóstolos - assim o diz a Igreja - e por Ele me ensinou, para que saiba e queira.

"E começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia se exprimissem". O que está cheio do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários testemunhos de Cristo, tais como a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência.

Falamos com estas virtudes quando as mostramos aos outros em nós mesmos. A linguagem é viva, quando falam as obras. Cessem, por favor, as palavras; falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras, e, por isso, somos amaldiçoados pelo Senhor. Ele mesmo amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas. Ao pregador foi dada a amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas. Ao pregador foi dada a lei, escreve São Gregório, de realizar aquilo que prega. Em vão se gaba do conhecimento da lei quem destrói com as obras a doutrina. Mas, os Apóstolos falavam conforme o Espírito Santo lhes concedia se exprimissem. Ditoso o que fala segundo o dom do Espírito Santo, não segundo o seu ânimo. Há, de facto, alguns que falam do seu espírito; roubam as palavras dos outros e propõem-nas como próprias, e atribuem-nas a si.

Falemos, por conseguinte, conforme a linguagem que o Espírito Santo nos conceder; e peçamos-lhe, humilde e devotamente, que derrame sobre nós a sua graça, para que possamos celebrar o dia de Pentecostes com a perfeição dos cinco sentidos e a observância do decálogo, nos reanimemos com o forte vento da contrição e nos inflamemos com essas línguas de fogo que são os louvores de Deus, a fim de que, inflamados e iluminados nos esplendores da santidade, mereçamos ver a Deus trino e uno».

Com os votos de um santo Domingo de Pentecostes!
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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